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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O QUE É UMA ANÁLISE? - DR. DAVID ZIMERMAN

     Inicialmente, convêm estabelecer uma distinção entre os conceitos de Psicanálise, no sentido amplo do termo, e o de alguém estar se submetendo a uma análise, no sentido estrito de um tratamento psíquico, fundamentalmente, segundo a teoria e técnica psicanalítica postuladas pelo gênio de Freud.

     Assim, Freud definiu a psicanálise com as clássicas três características básicas: como um procedimento de investigação dos processos mentais; um método de tratamento e uma disciplina científica, sendo que ele destacou que deve existir uma união entre curar e investigar.

     Uma análise pessoal consiste em um método de tratamento que, sobretudo, requer algumas premissas fundamentais, sendo que, quando começou a construir o seu edifício da psicanálise científica, Freud destacou as três seguintes, que nunca podem faltar, para definir uma verdadeira análise: o trabalho com as Resistências que, de formas variadas, sempre surgem no processo analítico (como forma de uma, inconsciente, oposição do ego do paciente contra a emergência no consciente, de desejos proibidos); as Transferências, positivas e, ou, negativas, e as Interpretações formuladas pelo psicanalista. 

     Essas últimas, ainda segundo Freud, resultam de uma decodificação que o analista faz do "material" (sonhos, sintomas, livre associação das narrativas do paciente, resistências, transferências, etc), e, fundamentalmente consistem em tornar consciente aquilo que estava no inconsciente, de sorte a que, " no lugar ocupado pelas pulsões instintivas do id e das ameaças do superego, restasse um ego mais forte e sadio".

     Quando a interpretação é bem sucedida, ainda segundo Freud, costuma resultar uma iluminação (insight) na mente do paciente, assim abrindo um caminho para a cura analítica.

     Decorrido mais de um século, essas premissas continuam válidas e vigentes, porém isso acontece de forma parcial, visto que das raízes de Freud e  seguidores imediatos, novas escolas de psicanálise se ramificaram, com contribuições importantes, baseadas em idéias novas e originais. Desta forma, não negando a Freud, mas indo além dele, as novas concepções psicanalíticas propiciaram uma maior compreensão dos fenomenos psiquicos que caracterizam o desenvolvimento emocional primitivo, assim abrindo as portas da psicanálise para o tratamento de pacientes com um alto grau de regressão.

     Em síntese, desde a criação da psicanálise clássica ha cento e poucos anos, até a psicanálise contemporânea, a psicanálise vem sofrendo profundas e aceleradas transformações, tanto na pessoa do paciente que procura um tratamento psicanalítico, como na pessoa do psicanalista e também do próprio processo psicanalítico.

     Em relação pessoa do paciente as mudanças consistem no surgimento de novas patologias, com são os pacientes psicóticos, borderline, transtornos narcisistas, transtornos da auto-estima, falsos self, transtornos alimentares, pacientes somatizadores, patologia do vazio, o incremento de tratamento de base psicanalítica com crianças, casais, famílias, etc. As transformações na pessoa do psicanalista aludem ao fato de que, na atualidade o terapeuta deixou o seu lugar de um poderoso deus que sentenciava as verdades finais e absolutas para o paciente que, então ficava apassivado, de sorte que na psicanálise contemporânea predomina, de longe, uma atitude de uma permanente interação  entre analista e paciente. Além disso, um expressivo número de psicanalistas atuais, advoga a idéia de que a pessoa real do analista representa ser um importante fator que influencia decisivamente no andamento e nos resultados terapeuticos de uma análise. O processo psicanalítico atual alude à importancia do campo analítico, composto pela interação paciente-analista, com as profundas transformações de como os analistas de hoje pensam e praticam os correspondentes fenômenos que caracterizam toda e qualquer análise, como são o da construção de um setting; o surgimento de resistencias-contraresistencias; transferencias-contratransferencias; atuações (actings); transtornos da comunicação; atividade interpretativa; elaboração; aquisição de insight e os critérios de crescimento mental (cura).

     Cada um destes fenômenos do campo analítico, separadamente, mereceria longas considerações relativas às mudanças na prática psicanalítica atual, porém, aqui, as condições de espaço inviabilizam este propósito.  Pode-se dizer que, para o psicanalista, a tarefa de analisar um paciente ficou muito mais difícil e complexa do que era no passado, porém, em contrapartida, ela é mais instigante, fascinante e eficaz, para um número mais abrangente de pessoas desejosas de fazer um tratamento psicanalítico.

David Zimerman

Texto extraído de: http://site.sppa.org.br/paginas/147/ArtigosCientificos, em 09 de fevereiro de 2015.